Educação Química e Filosofia da Química: uma proposta para o estabelecimento de interfaces
DOI:
https://doi.org/10.56117/resbenq.2026.v7.e072617Palavras-chave:
Filosofia da Química, Concepção Pedagógica, Dimensão Filosófica da Educação, Pedagogia Histórico-CríticaResumo
No Brasil, aproximações entre a Filosofia da Química e a Educação Química são recentes, porém ainda concentradas em sintetizar temáticas da Filosofia da Química, esboçando contribuições pontuais à Educação em Química, ignorando, dentre outros aspectos, os dissensos em diversos temas filosóficos. Nesse contexto, poucos debates entre educadores sobre o que deve ser levado em conta ao se apropriar de outro campo, no caso a Filosofia da Química, têm sido realizados. Visando contribuir para essa discussão, o objetivo deste ensaio é defender o estabelecimento de interfaces entre a fundamentação filosófica da química e a concepção pedagógica adotada, considerando os fundamentos ontológicos, epistemológicos e axiológicos para a elaboração de objetivos educativos do ensino de química. Tomando como exemplo a concepção pedagógica da Pedagogia Histórico-Crítica, estabelecemos interfaces com a Filosofia da Ciência e da Química de Rein Vihalemm, apontando uma coerência teórica e implicações educacionais a partir das noções de materialismo, realismo, prática e dialética. Como resultados, apresentamos implicações para o ensino de química que dizem respeito à abordagem dos conteúdos em uma perspectiva realista; às problematizações filosóficas, sociais e éticas da produção material de substâncias; e às discussões histórico-filosóficas que relacionam a química, a tecnologia, a indústria e a economia. Concluímos que a reflexão sobre uma base filosófica da educação oferece uma coerência teórica capaz de nos orientar em futuros estudos para a elaboração de propostas educacionais.
Referências
Araujo Neto, W. N. (2012). Estudos sobre a noção de representação estrutural na educação em química a partir da semiótica e da filosofia da química. Revista Virtual de Química, 4(6), 719-738 http://dx.doi.org/10.5935/1984-6835.20120054
Baird, D., Scerri, E., & McIntyre, L. (Eds.). (2006). Philosophy of chemistry: Synthesis of a new discipline. Springer.
Barbosa, F. T., Lorenzetti, L., & Aires, J. A. (2022). O aspecto tecnocientífico do conhecimento químico contemporâneo. Revista da Sociedade Brasileira de Ensino de Química, 3(1), 1-21. https://doi.org/10.56117/resbenq.2022.v3.e032201
Bengoetxea, J. B. (2004). Filosofía y enseñanza de la química sin reduccionismos. Educação e filosofía, 18 (35), 233-258. https://philpapers.org/rec/BENFYE
Bensaude-Vincent, B., & Simon, J. (2012). Chemistry: The impure science. (2nd ed.). World Scientific.
Bensaude-Vincent, B., & Stengers, I. (2023). História da química. (F. J. Luna, Trad.). Editora Unicamp.
Chalmers, A. (2013). Hasok Chang: Is water H₂O? Evidence, pluralism and realism, Boston studies in the philosophy of science. Science & Education, 22(4), 913–920. https://doi.org/10.1007/s11191-012-9554-5
Chang, H. (2012). Is water H2O?: Evidence, realism and pluralism. Springer Netherlands.
Chang, H., Duncan, K., Kim, K., & Paik, S. H. (2020). Electrolysis: What textbooks don’t tell us. Chemistry Education Research and Practice, 21(3), 806-822. https://doi.org/10.1039/C9RP00218A
Colturato, A. R., & Massi, L. (2021). O caso de Nicolas Leblanc e a produção da soda: elementos para compreensão da natureza da ciência. Alexandria: Revista de Educação em Ciência e Tecnologia, 14(1), 397-423. https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=8076168
Duarte, N. (2001). As pedagogias do “aprender a aprender” e algumas ilusões da assim chamada sociedade do conhecimento. Revista Brasileira de Educação, (18), 35-40. https://doi.org/10.1590/S1413-24782001000300004
Erduran, S., Bravo, A. A., & Naaman, R. M. (2007). Developing epistemologically empowered teachers: examining the role of philosophy of chemistry in teacher education. Science & Education, 16(9-10), 975-989. https://doi.org/10.1007/s11191-006-9072-4
Erduran, S., & Mugaloglu, E. Z. (2014). Philosophy of chemistry in chemical education: recent trends and future directions. In M. R. Matthews (Org.), International handbook of research in history, philosophy and science teaching (pp. 287-315). Springer. https://link.springer.com/book/10.1007/978-94-007-7654-8
Ghibaudi, E., & Cerruti, L. (2020). Filosofia della chimica: un orizzonte conoscitivo inedito per la nostra disciplina? La Chimica e l'Industria Newsletter, 7(1), 14-19.
Giordan, M.; Gois, J., & Ribeiro, M. A. P. (2024). Fronteiras entre a educação química e a filosofia da química em movimentos transitivos. Revista da Sociedade Brasileira de Ensino de Química, 5(1), 1-5. https://doi.org/10.56117/ReSBEnQ.2024.v5.e052425
Hirayama, M. P., & Porto, P. A. (2021). Elementos de história e filosofia da química segundo professores do ensino médio: relações química/sociedade. Revista da Sociedade Brasileira de Ensino de Química, 2(1), 1-27. https://doi.org/10.56117/resbenq.2021.v2.e022104
Hacking, I. (2012). Representar e intervir: tópicos introdutórios de filosofia da ciência natural. (P. R. Oliveira, Trad.). Editora da UERJ.
Hoffmann, R. (2007). What might philosophy of science look like if chemists built it?. Synthese, 155(3), 321-336. https://doi.org/10.1007/s11229-006-9118-9
Kavalek, D. S., Souza, D. O. G., Del Pino, J. C., & Ribeiro, M. A. P. (2015). Filosofia e História da Química para educadores em Química. História da Ciência e Ensino: construindo interfaces, 12, 1-13.
Klein, U., & Spary, E. C. (Eds.). (2010). Materials and expertise in early modern Europe: between market and laboratory. University of Chicago Press.
Labarca, M., Bejarano, N., & Eichler, M. L. (2013). Química e filosofia: rumo a uma frutífera colaboração. Química nova, 36 (8), 1256-1266. https://quimicanova.sbq.org.br/pdf/Vol36No8_1089_01-AR12879
Labarca, M., Quintanilla-Gatica, M. R., & Izquierdo-Aymerich, M. (2022). El problema del grupo 3 de la Tabla Periódica: su enseñanza mediante la argumentación y la explicación científica: primera parte. Ciência & Educação, 28, e22013, 1-12. https://doi.org/10.1590/1516-731320220013
Lemes, A. F. G., & Porto, P. A. (2013). Introdução à filosofia da química: uma revisão bibliográfica das questões mais discutidas na área e sua importância para o ensino de química. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 13(3), 121-147. https://www.academia.edu/download/86060005/2839.pdf
Laszlo, P. (2001). Handling proliferation. Hyle: International Journal for Philosophy of Chemistry, 7(2), 125-140. https://www.hyle.org/journal/issues/7/laszlo.htm
Lefèvre, W. (2005). Science as labor. Perspectives on Science, 13(2), 194-225. https://doi.org/10.1162/106361405774270539
Lima, M. M., & Silva, J. L. P. B. (2020). Orbital atômico: conceitos, ontologia e ensino. Revista da Sociedade Brasileira de Ensino de Química, 1(1), 1-33. https://doi.org/10.56117/resbenq.2020.v1.e012001
Lombardi, O., & Labarca, M. (2005). The ontological autonomy of the chemical world. Foundations of Chemistry, 7(2), 125-148. https://doi.org/10.1007/s10698-004-0980-6
Lukács, G. (1978). Introdução a uma estética marxista. (2a ed.). (C. N. Coutinho e L. Konder, Trad.). Editora Civilização Brasileira, 1978.
Manafu, A. (2013). Internal realism and the problem of ontological autonomy: a critical note on Lombardi and Labarca. Foundations of Chemistry, 15(2), 225-228. https://doi.org/10.1007/s10698-012-9165-x
Marx, K. (2001). Anexo: Teses sobre Feuerbach. In K. Marx & F. Engels, A ideologia alemã (L. C. C. Costa, Trad.) (pp. 99-103). Martins Fontes.
Marx, K. (2008). Contribuição à crítica da economia política (2a ed.) (F. Fernandes, Trad.). Expressão Popular.
Matthews, M. S. (1995). História, filosofia e ensino de ciências: a tendência atual de reaproximação. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, 12(3), 164-214. https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/5165906.pdf
Mocellin, R. C. (2019). Natureza, técnica e materiais: um estilo químico-materialista de raciocínio e a preservação ambiental. In E. Becker, M. A. Becker, & S. M. S. Matos (Orgs.), Técnica, natureza e ética socioambiental (pp. 53-73). República do Livro.
Needham, P. (2006). Ontological reduction: A comment on Lombardi and Labarca. Foundations of Chemistry, 8(1), 73-80. https://doi.org/10.1007/s10698-005-9002-6
Oliveira, D. A. B. D., & Gomes, V. B. (2021). Uma crítica ao reducionismo filosófico da química à mecânica quântica como elemento fundamental para a formação de professor. Ciência & Educação, 27, e21074, 1-14. https://doi.org/10.1590/1516-731320210074
Pires, D. R. G., Santana, T. S. S., & Ribeiro, M. A. P. (2023). Fisicalismo redutivo no ensino de química. Educação Química en Punto de Vista, Dossiê EPPEQ, 1-18. https://revistas.unila.edu.br/eqpv/article/view/3248/3465
Putnam, H. (1981). Reason, truth and history. Cambridge University Press.
Ribeiro, M. A. P. (2016). A emergência da filosofia da química como campo disciplinar. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 16(2), 215-236. https://periodicos.ufmg.br/index.php/rbpec/article/view/4373
Ribeiro, M. A. P. (2017). Panorama histórico da relação entre filosofia e química. Educação Química en Punto de Vista, 1(2), 21-41. https://doi.org/10.30705/eqpv.v1i2.977
Ribeiro, M. A. P. (2024). Filosofia da Química como um fundamento teórico da educação química. Revista da Sociedade Brasileira de Ensino de Química, 5(1), 1-27. https://doi.org/10.56117/resbenq.2024.v5.e052424
Rosa, J. M. (2018). A apropriação dos princípios fundamentais da teoria da evolução e os alcances abstrativos na concepção de mundo. [Tese de Doutorado, Universidade Estadual Paulista]. Repositório Unesp. http://hdl.handle.net/11449/157252
Rozentalski, E. F., & Porto, P. A. (2021). A ética química e seu ensino a estudantes de química. Química Nova, 44(9), 1210-1218. http://dx.doi.org/10.21577/0100-4042.20170771
Saviani, D. (2009). Educação: do senso comum à consciência filosófica. (18a ed.). Autores Associados.
Saviani, D. (2011). Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. (11a ed.). Autores Associados.
Saviani, D. (2012). A pedagogia no Brasil: história e teoria (2a ed.). Autores Associados.
Saviani, D. (2015). O conceito dialético de mediação na pedagogia histórico-crítica em intermediação com a psicologia histórico-cultural. Germinal: marxismo e educação em debate, 7(1), 26-43. https://periodicos.ufba.br/index.php/revistagerminal/article/view/12463
Scerri, E. R. (2003). Philosophical confusion in chemical education research. Journal of Chemical Education, 80(5), 468-474
Scerri, E. (2019). The periodic table: its story and its significance. (2nd ed.). Oxford University Press.
Schummer, J. (2001). Ethics of chemical synthesis. Hyle: International Journal for Philosophy of Chemistry, 7(2), 103-124. https://www.hyle.org/journal/issues/7/schummer.htm
Schummer, J. (2006). The philosophy of chemistry: from infancy towards maturity. In D. Baird, E. Scerri, & L. McIntyre (Eds.), Philosophy of chemistry: synthesis of a new discipline. (pp. 19-39). Springer.
Schummer, J. (2015). The methodological pluralism of chemistry and its philosophical implications. In E. Scerri & L. McIntyre (Eds.), Philosophy of chemistry: growth of a new discipline. (pp. 57-72). Springer Netherlands.
Silva, C. S., & Messeder Neto, H. S. (2021). O ensino de química como unidade dialética entre os níveis macroscópicos e submicroscópicos: para além do triângulo do Johnstone. Revista Exitus, 11, e020201, 1-25. https://doi.org/10.24065/2237-9460.2021v11n1ID1607
Silva, F. C., & Sasseron, L. H. (2023). Entre normas e rotinas da química orgânica: o trabalho com os domínios do conhecimento científico. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e42398, 1-21. https://doi.org/10.1590/1983-21172022240148
Silva, L. B., Barreto, U. R., Bejarano, N. R. R., & Ribeiro, M. A. P. (2018). A filosofia da ciência e a filosofia da química: uma perspectiva contemporânea. Revista Ideação, ed. esp., 392-423. https://doi.org/10.13102/ideac.v0i0.3020
Talanquer, V., & Pollard, J. (2010). Let’s teach how we think instead of what we know. Chemical Education Research and Practice, 11(2), 74-83. https://doi.org/10.1039/C005349J
Teixeira, L. A., & Massi, L. (2022). O papel do conhecimento científico na formação da concepção de mundo dos estudantes: desafios da pesquisa em ensino de ciências e de sociologia no Brasil. Lutas Anticapital.
Van Brakel, J. (1999). On the neglect of the philosophy of chemistry. Foundations of Chemistry, 1(2), 111-174. https://doi.org/10.1023/A:1009936404830
Vihalemm, R. (2003). Are laws of nature and scientific theories peculiar in chemistry? Scrutinizing Mendeleev's discovery. Foundations of Chemistry, 5(1), 7-22. https://doi.org/10.1023/A:1021980526951
Vihalemm, R. (2007). Philosophy of chemistry and the image of science. Foundations of Science, 12(3), 223-234. https://doi.org/10.1007/s10699-006-9105-0
Vihalemm, R. (2011). Towards a practical realist philosophy of science. Baltic Journal of European Studies, 1(1), 46-60. https://www.ies.ee/iesp/No9/iesp_no9.pdf
Vihalemm, R. (2015a). Philosophy of chemistry against standard scientific realism and anti-realism. Philosophia Scientiæ, 19(1), 99-113. https://doi.org/10.4000/philosophiascientiae.1055
Vihalemm, R. (2015b). Theoretical philosophy and philosophy of science in soviet times: some remarks on the example of Estonia, 1960-1990. Studia Philosophica Estonica, 8(2), 195-227. https://doi.org/10.12697/spe.2015.8.2.10
Vihalemm, R. (2016). Chemistry and the problem of pluralism in science: an analysis concerning philosophical and scientific disagreements. Foundations of Chemistry, 18(2), 91-102. https://doi.org/10.1007/s10698-015-9241-0
Wartha, E. J., & Rezende, D. B. (2017). As representações no ensino de química na perspectiva da semiótica peirceana. Educação Química en Punto de Vista, 1(1), 181-202. https://doi.org/10.30705/eqpv.v1i1.886
Zambrano-González, N. A. (2024). Interfaces entre Filosofia da Química e Educação Química: diálogos inadiáveis para a educação contemporânea. Revista da Sociedade Brasileira de Ensino de Química, 5(1), 1-20. https://doi.org/10.56117/resbenq.2024.v5.e052411
Zeidler, P. (2000). The epistemological status of theoretical models of molecular structure. Hyle: International Journal for Philosophy of Chemistry, 6(1), 17-34. https://www.hyle.org/journal/issues/6/zeidler.htm
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Licença Creative Commons
Todas as publicações da Revista da Sociedade Brasileira de Ensino de Química estão licenciadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 International License. (CC BY 4.0).
Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:
- Autores mantêm os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attributionque permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho on-line(ex.: em repositórios institucionais ou na sua página pessoal) a qualquer ponto antes ou durante o processo editorial, já que isso pode gerar alterações produtivas, bem como aumentar o impacto e a citação do trabalho publicado (Veja O Efeito do Acesso Livre).
